Greve política?

Que o exercício do direito de greve é fundamental para o equilíbrio de forças entre empresários e empregados, não se discute. Trata-se – parafraseando John Rawls – de um consenso sobreposto. Entretanto, não é isso o que se vê no movimento de paralisação organizado para esta sexta-feira.

Ser contra as reformas trabalhistas e previdenciária é uma opção político-ideológica. Discordar é (ou deveria ser) algo natural em um ambiente plural, cujas notas dissonantes advêm de uma saudável troca de ideias. Não surpreende (ou não deveria surpreender), pois, a livre, ordeira e legítima desavença sobre qual o melhor modelo de regulação das relações de emprego e de concessão e pagamento de benefícios. Ponto para a democracia. Mas e a greve de sexta?

Bom, em relação a isso, sobressai-se a seguinte questão: o que o dono da padaria, a escola do seu filho ou as empresas de transporte público podem fazer a respeito? Isso mesmo, absolutamente nada!

Fazer greve é pressionar. Fazer greve é demonstrar poder de barganha contra quem tem a faca e o queijo na mão. Fazer greve é buscar uma oportunidade para negociar, falar, quebrar vontades, abrir as mentes e corações ou mexer no bolso de quem tem algo a oferecer. Por isso, pergunto mais uma vez: o que o dono da padaria, a escola do seu filho ou as empresas de transporte público podem oferecer aos grevistas contrários às reformas trabalhista e previdenciária? Isso mesmo, absolutamente nada!

Não duvido que o resultado final destas manifestações seja o oposto do que se almejou e acabe por acelerar, ainda mais, a tramitação de ambas.

6 opiniões sobre “Greve política?”

  1. Trabalhei por 25 anos como servidor público federal na área da saúde. Em nossas reuniões para “deliberar” (sim, porque a questão já estava anteriormente definida pelos petistas) tive meu solitário voto contrário. Porque? Por uma simples razão, o único resultado de nossas greves era o massacre da população usuária dos serviços. O governo pouco se importava com a paralização, até economizava sem gastar os insumos necessários para o funcionamento dos ambulatórios. Acredito que sexta não será diferente.

    1. Pois é, Antonio. Greve no serviço público é sempre mais complicada do que na iniciativa privada, seja porque o empregador tem fôlego para esperar (não vive de lucros, mas sim de impostos), seja porque a pressão contrária vem da população usuária deste serviço. O segredo é conseguir convencer a sociedade da justiça da reivindicação.
      O que me referi no post, por outro lado, não é sobre isso. Sexta-feira haverá uma paralisação, uma manifestação ou qualquer outro nome que queiram conferir, mas greve, definitivamente, não é.

  2. Sábias palavras. Concordo plenamente! Num país “quebrado” como o nosso, além dessa greve não atingir de fato o objetivo que almejam, atrapalhará e muito aos que querem realmente trabalhar. Vamos aguardar e ver no que dará…
    (Inaugurei o seu blog !! Espero que dê sorte😁.)
    😘😘😘😘

  3. Concordo que seja uma greve política, pois os motivos reais sobre vantagens e desvantagens para empregador e empregado não estão sendo devidamente esclarecidos. Parece muito mais uma luta contra o ex-presidente Lula e o atual presidente Temer.
    Por outro lado, o que o meu filho tem a ver com isso? Pois é, escola não vai se organizar, não será um dia de aula normal. Será um dia perdido com um planejamento adaptado com as professoras que conseguirem chegar se houver greve nos transportes públicos como se está cogitando. Isso prejudica o ensino se reiteradas vezes.
    Quanto ao comerciante, ao empresário, a produtividade no país? Vai diminuir, trabalhadores vão faltar e a meta da fábrica ou produção de pães da padaria mesmo vai ser afetada. Disso eu não tenho dúvida.
    A dúvida é quanto ao direito de greve. Até que ponto é saudável para um país em crise econômica continuar com esse tipo de comportamento? Essa é minha visão de futuro. Um país que não pensa, não se organiza intelectualmente e não produz não cresce e nem consegue competir com os outros grandes exportadores mundiais. Precisamos ter consciência de que o trabalho é necessário tanto para o patrão quanto para o empregado. A greve é justa, mas precisa ser para benefício da nação e não por ego político.
    A

    1. Por isso, Adriana, que deveriam repensar o movimento. Para começar, chamá-lo de manifestação, e não de greve, pois, tecnicamente, greve não é. Os cortes de ponto já estão sendo ventilados por alguns empregadores. O ideal seria que se fizesse no fim de semana ou mesmo no feriado de 01 de maio, cujo simbolismo seria muito mais marcante. Escolher a sexta-feira pré-feriado é confirmar que somos o país da piada pronta.

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